Homenagem mútua / Caderno "R" — And now, Mr. Rain met Ms. Casement...

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C.,
Pensei em demasia: como poderia escrever isso assim, à você, sem que soasse clichê? Bem, de qualquer modo, acredito que as coisas são sempre melhores desde que, claro, pensemos. Como te dizer que você é toda certa? Bem, você é toda certa — ao menos à mim, e ao menos agora.

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R.,
Queria que soubesse que li bem atenta tuas palavras. Esteja certo de que fora, sim, algo totalmente demodé, em superfícies longínquas ao que já é de praxe: não duvide de teu potencial, querido. Quem és? É engraçado, mas essa pergunta servira apenas para não fugir tanto do que já conheço — afinal, sinto-me mais confiante pisando em solos conhecidos. Sei-o bem. Parece que já lhe conheço. Você é todo certo. Ao menos prá mim, e não somente no agora.

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C.,
Quem sou? Bem, talvez me definir como alguém-que-gostou-de-você, que está ouvindo música na velha vitrola e que, para a maioria, só está escrevendo bazófia me pareça a definição perfeita. Não sei lhe dizer se agi sensatamente; mas, diga-me: havia mesmo como não fazê-lo com esses livros todos na tua carteira de registro da Biblioteca? E quanto ao teu gosto musical? Sei que há Beatles e AC/DC na parede do teu quarto. Você é pura Literatura, você é puro Rock, pele alva e cabelos e olhos castanhos, vestido e serenidade, noite e música calma. Só está tudo certo, no meu conceito de certo — no momento, o certo mais certo: meu português errado.
Quem sou? Bem, talvez definir a você seja uma tarefa menos complicada. Ou nem tanto assim...

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R.,
Bazófia? Bazófia é o que os outros escrevem. Por ora noto ter feito uma pergunta retórica. Afinal, imagino conhecer mais a ti do que a mim mesma. Arte. Drummond. Beatles. AC/DC. Olhares atentos aos detalhes, às características. Costumes, manias, vocabulário. Soberbos. Soberbo. Um ótimo" em grau superlativo — inexiste, sei bem; a Gramática o anuncia. Mas são apenas pormenores, por menores que sejam. Não há definição melhor para quem és: o "ótimo", por mais superior que seja, me parece ameno para qualificá-lo. Se me perguntares quem sou, terei a mesma resposta, na ponta da língua: "Sou alguém que gostou de você."
Talvez até mais do que isso.

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C.,
Jogos de palavras. Conhecimento da língua. Usarei a mesma referência do tão querido Manfredini — Dylan —, mas parafraseando: primeiro me apaixono pela escrita — substitua por qualquer outro verbo, caso prefira, mas não o faça com essa nossa noite, tão atípica... Eternizamos nossas palavras a partir do momento que tocamos a tinta da caneta no papel. E isso me felicita — e como me felicita...
Imagino-te cantando, com voz azul-púrpura. E o que seria melhor para alguém que simboliza o azul por um Mundo Livre em mistura com a exaltação de uma cena simplória de Cléo e Daniel? Você cantaria, agora? Se simplesmente pudesse?

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R.,
Há um frio na barriga crescente enquanto aguardo ansiosa por tuas palavras. São dias. Preciso te repetir uma vez mais o quão soberbo és. Sinto-me capaz de ver as cores de su'aura, e, sei-o bem: nela há cores mais vibrantes do que qualquer outra em tua órbita. És de uma pureza sem igual. Cléo e Daniel. Rimas nada propositais, adjetivos e figuras de linguagem — hipérboles à mesma maioria da bazófia; eufemismos à nós. Cléo e Daniel. Roberto Freire. Azul-púrpura. Azul e púrpura: as cores do céu instantes antecedentes ao de uma forte tempestade, anunciando a formação de correntezas que disseminarão as energias de minh'alma ao mundo... Um rosto em tons angelicais. Eu cantaria à ti. Cantaria agora. Cantaria se simplesmente pudesse. Cantaria as cores que te envolvem, cantaria o brilho do teu sorriso. Cantaria o brilho dos teus olhos, cantaria as flores no jardim. Cantaria Lispector, Quintana e Espanca. Cantaria a poesia, cantaria o viver!...
Cantaria o nosso encontro.

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C.,
Dentre todos, Quintana! Dentre os deuses, dentre os significativos, dentre os representativos, dentre todos dos quais ele não se considerava à altura, Quintana. Entre nós, apenas Quintana e o laconismo leminskiano. Seus textos para alguém que significa algo para você, para um ídolo, para o cantor poeta, para um amor, para um poetinha cantor. Por mais pretensioso que pareça, por mais ausência de razão que seja, ao menos uma vez, com toda a certeza, você é a menina dos olhos de alguém. Do exterior ao interior, simplesmente certa. Não sei se nos falaremos após tic tacs — afinal, o sabemos bem: essas coisas — sim!, as indefiníveis! — duram poucos instantes. Talvez seja por isso que é ansiosamente que também aguardo tuas mensagens. Mensagem. Pessoa. Persona. Máscara. Uma máscara de poucos tic tacs para ambos? Apenas me diga quando for para retirá-la com o hábito do "boa-noite", senão, como na Tabacaria, ela pode grudar à face por esperar.

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R.,
Pensando bem, eu realmente o conheço. És a personificação dos poéticos personagens presentes em meus textos, provenientes de minha imaginação. Jamais imaginei encontrá-lo. E é agora. Agora posso compreender: é você. Te vi em meus textos. Vi meus textos em você. Me diga: como me achara? Como descobrira a mim? Adoraria saber como enxergas quem sou com esse olhar que mais se aproxima de um único adjetivo — "amabilíssimo". Certas palavras de teu vocabulário me lembra também um velho amigo poeta, que costumava dizer que, entre nós, havia "watts incalculáveis de poesia". Eu não quero me afastar de ti. Eu não preciso me afastar de ti. Que se danem os tic tacs! Eu preciso de extensões! Preciso de lições, preciso de sensações! Por que não prosseguirmos mascarados? — máscara, essa, poética. Uma máscara espelhada. Reflete o que há aqui dentro. Reflete a azul-purpuridade que há em nossas palavras. O carinho. E volta o brilho do teu olhar... do teu sorriso, que de minha mente não sai.
Eu o conheço, Mr. Rain. Eu o conheço, Daniel. Eu o conheço, e de algo estou certa: é mais do que a mim mesma. Não se afaste de mim. E que não retiremos nossas máscaras jamais. Nossas máscaras que têm como sinônimo o verbo "ser" nos três tempos verbais. A máscara que retrata todo um turbilhão de sensações. A máscara.
Eu e você. Você e eu.

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C.,
Então és como eu? Escreve apenas para ícones idealizados que, na verdade, não existem? Se for, é só na base como eu. Muito mais audaciosa, você guarda o que escreve. Admiro em você toda a minha incapacidade: o verso livre, a prosa poética. Todo o dom da escrita. A habilidade de manter do ouro a raridade, de não torná-lo caco de vidro quando posto ao sol. Uma bela alquimista da língua. Sybil, Cléo, Remédios, Margarida, Dulcinéia. Dessa última, "eu a amo como imagino que ela seja"; daquela, a maior declaração literária que já li, exaltada como nesses lapsos de frases em que eu vejo maior valor do que talvez haja: "um só de teus olhares; Uma palavra, muito mais m'int'ressam; Que deste mundo toda a vã ciência" —mera declaração, se não fosse de um homem que vendeu a alma por "deste mundo toda a vão ciência". Ligaria só para ouvir sua voz, agora. Só para ver a cor, sentir o gosto da sua voz. Ms. Casement... Oh!, Ms. Casement... Se me incita a usar um dominó que talvez não seja meu, a errar onde meu ídolo errou — e gritou seu erro para os tolos —, claro que eu aceito. Mas nesta noite eu já estava com a máscara. A máscara da indiferença com a vida social cotidiana, por um mero domingo, um mero dia sem o trabalho, sem a faculdade, sem nada a ser. Nada como a madrugada de um domingo para achar alguém; para achar você. Ainda mais se está assim, oculta para outro alguém, sem eu estar tocando a idealização alheia. Até agora era isso que pensei que fosse, mas o pudor é apenas conveniência,
não pude reprimir um atestado de admiração — depois outro e outro. Casement, Casement, Casement... me diz: por que tenho de ir? Vejamos o que és, depois de tantos tic tacs; veja quem sou, após uma boa noite de sono.
Vejamos quem somos sem a persona. Vejamos.
Durma bem, Ms.

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R.,
Prezadíssimo, queridíssimo, adoradíssimo Mr. Rain...
O dia amanheceu, e eu prossigo a querê-lo aqui. Acordei feliz por saber: você. Não fora um sonho. Realidade. Das tantas certezas que tenho, acabo de ter mais uma: seria improvável que, algum dia, eu fosse capaz de expressar, mesmo que por meio de infinitos versos, o brilho de meu sorriso ao me comunicar contigo. Acho que furtamo-nos as almas. Poesificação. Mr. Rain, Mr. Rain... Que admiração inconstante, crescente, esbelta. Uma madrugada, a Lua. Lá no alto. Céu. Lua. Se fosses a Lua, passaria a acreditar que ela é composta de pequeninos grãozinhos de açúcar. Ou então, quem sabe?, que fosse rodeada de colméias. Ora!, afinal, é assim mesmo que tem de ser — quanto mais doce, mais "você" é. Poesia na madrugada: planeta. Galáxia. Universo. Invisível. Imensurável. Sensível e inatingível. A órbita — é lá que estamos.
"Sei de céus a estourar de relâmpagos, trombas,
Ressacas e marés; eu sei do entardecer,
Da Aurora a crepitar como um bando de pombas,
E vi alguma vez o que o homem pensou ver!"
Rimbaud. Arthur. Rain. Daniel. Rain, Rain... Rain. Camões, Bocage, Vieira, Assis. Dentre todos, Rain!
Mas que admiração inquieta, estupenda!

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C.,
Bem... o que acha de a tornarmos constante?!