Seus pés envoltos pelo velho e imundo converse azul caminhavam sobre a grama excessivamente verde e macia, e ainda um tanto úmida, trazendo a memória da forte tempestade da noite anterior. Andavam ritmados ao som a penetrar pelos seus ouvidos, Iron and Wine. Para aquela garota, apenas mais uma garota, nada poderia haver de melhor no mundo. 
Ao menos, não naquele instante.
Ao seu lado, outro par de um gasto converse, e ombros capazes de suportar todo o peso do mundo – e ele não pesava mais do que o velho violão de seu pai, pendurado na alça cor-de-céu. Sua mão direita buscou a dela, que, concentrada no som em seus ouvidos, no mais espontâneo dentre todos os seus gestos, fitou com seus olhos os dele, logo em seguida fechando-os ao sorrir. Aquele não era só mais um rapaz. 
Ao menos, não para ela.

No mais confortável dos silêncios a serem partilhados, os dois sentaram-se no banco abaixo da mais florida das árvores. Ele tirou os fones daqueles ouvidos a sua frente, que tanto sabiam sobre a porção mais subjetiva que sequer sabia que tinha  fruto das tardes recheadas de confissões deitados sobre aquela mesma grama –, e posicionou o violão sobre a sua perna. Ela, que sentia no gesto de fechar os olhos o real significado do viver, posicionou a sua cabeça sobre aquele ombro capaz de suportar o peso de todo o seu mundo, de olhos cerrados e alma plácida, sempre escancarada para os gestos provindos daquele coração a pulsar forte ao seu lado, mas tão forte que, dos seus ombros, ela era capaz de bem sentir.
Notas e melodias conhecidas e alojadas na porção esquerda do peito emergiam do acariciar de seus dedos sobre as cordas do violão, e seus pés, inquietos, acompanhavam cada uma delas numa quase-perfeição rítmica. 
Imersa na subjetividade de seus olhos sempre-fechados, sentiu repentinamente seu coração quente, quente como fogo, e, seu peito, esfumaçando-se. Imersa nesse incêndio torácico, suas pupilas castanhas escancararam súbitas toda a verdade de sua alma, clamando por socorro.
Encarou o rapaz ao seu lado, absorto em uma concentração admirável. Seus dedos seguiam seus lábios sussurrantes das mais belas palavras que já proferira, aliados à voz suave conectada aos pulmões, a sugarem todo o ar ambiente.
O amor era aquele sentimento que tornava possível um incêndio no mais completo vácuo.
Ela percorreu a mão pela sua face, alcançando os seus cabelos e alojando os dedos em seus cachos enredados, que ali encontraram moradia. Emaranhou-se inteira nos fios daquela barba, encontrou abrigo por debaixo do colarinho de sua camisa e viu o incêndio alcançar cada uma das casas de seus botões. 
De olhos bem abertos, ouvidos atentos e pupilas dilatadas, ela de repente captou o sentido da vida. E, daquele jeito, ele soava ainda mais subjetivo do que nunca.
Ele, sentado ao seu lado, trazia na garganta o nó do disfarce. O incêndio, iniciado em seu peito, mal sabia ela, percorreu cada uma das notas daquela velha música a ressoar de seus dedos e alcançou-a, logo alastrando-se ao longo de toda aura que os envolvia.
A música era aquela arte capaz de rumar a vida para o lado certo.
Suas mãos repousaram sobre o braço remendado do velho violão, e os dois, se antes aparentemente imersos no conforto do silêncio, tinham agora explícitos no olhar a quentura do lume que envolvia não só a eles, mas a todo o parque. O fogaréu alcançou o banco e a árvore sobre eles, tudo empestando. Chegou à grama sob seus pés, às árvores da face oposta e atravessaram a margem do lago, transpassando-o.
Ela sorri enquanto ele redireciona para os seus lábios o olhar. O incêndio propaga de seu peito e, por fim, alcança-os completos enquanto beijam-se na mais lenta das possibilidades urgentes, com intensidade sentindo o ardor que juntos produziam e que percorria cada uma de suas células. 
Desvencilham os lábios indissociáveis, e, enquanto fitam-se firmes, o céu sobre eles subitamente assume tons escarlates  o silêncio dos mais confortáveis partilhado. Foi quando, sorrindo, deram-se conta de que já não havia mais horizonte sem a vivacidade purpúrea a refletir a cor do fogaréu, a mesma do violão vermelho agora repousado pacato sobre o velho banco  tão pacato quanto a calmaria posterior a qualquer salvação.


É só você dobrar a esquina de casa que a saudade já vem fugaz na primeira batida que o meu coração dá longe de você.
Eu queria ao menos poder explicar isso. Mas eu não posso. Estou, no entanto, segura, uma vez que convicta de que é algo que nós dois, e apenas nós dois, somos capazes de entender: nós, que compartilhamos de todo o amor de mil vidas inteiras em um só sorriso.
A definição de amor rima com uma porção de coisas mais, mas inegavelmente rima com saudade. E essa, por sua vez, com dor. E, ah! como rima...
Você não acha curioso como sempre queremos estar por perto um do outro? É algo incessante, do instante em que eu acordo até os segundos que antecedem o sono, quando então posso tê-lo ao meu lado pelo tempo que for. E isso me faz sonhar cada dia mais, também acordada, com os tempos em que teremos todo o tempo do mundo para vivermos em uma só manhã, jogados na nossa própria cama, de pernas entrelaçadas, narizes colados e olhares fixados entre si.
Eu não consigo me habituar à sorte grande que eu tive em encontrar você. Não irei nunca deixar de achar impressionante o modo como nos cruzamos de repente naquele parque, naquela tarde tão comum e de modo tão inesperado. Nem por um segundo. Definitivamente aquele momento não ficou compactado ao presente; era certo que eu seria sempre sua. Sempre fui, e assim vai ser. E assim mesmo, como diz a canção, depois de você, os outros são os outros e só. A vontade maior dos meus dias é de te ver sorrir, e eu não quero mais nada na vida além de te fazer feliz. De longe eu sei que é isso, e apenas isso, o que eu quero que perdure por todos os meus dias, dias tão meus, que também seus. Cada vez mais nossos...
Quanta alegria têm os nossos dias! Não há quem tire do nosso rosto esses sorrisos de um milhão de dentes, sorrisos compartilhados, de causa clara, que fazem soar dois risos gostosos seguidos de olhinhos puxadinhos e dois pares de braços que se esticam e velozes se abraçam, fortes, apertados. Aos rodopios, como as nossas almas, leves, azuis, pairando pelo ar feito balões. Como nós, exalando juventude e alegria, alegria por se identificar com o tempo presente e sentir o impacto de duas peças que se encaixam: a tão nova sensação de se estar exatamente onde sempre se quis estar.
Certa vez você me disse que gosta de estar em minha companhia porque, comigo, você é livre para agir como age com qualquer outra pessoa no mundo. Isso me marcou de maneira especial, e eu nunca me esqueci. Com essas palavras poucas, você foi capaz de expressar o que eu há tempos tentava e não conseguia. É exatamente assim que as coisas funcionam entre nós dois: uma plena desnecessidade de sermos artificiais no que dizemos ou fazemos, e tampouco de agirmos contra as nossas vontades, que, muitíssimo curiosa e instigantemente, nunca divergem entre si. Assim, dessa forma gostosa como um cafuné, conquistamos pouco a pouco a certeza de que eu nasci para você e você nasceu para mim. De que você é o meu amor, mas é também o meu melhor amigo. Uma vez li num lugar essa frase: "The best relationship is when you can act like lovers and best friends at the same time". E de cantar, dançar e não se cansar de ser criança, a gente entende. A gente brinca na nossa velha infância.
O nosso encaixe, ah, o nosso encaixe é surreal. Nossos corpos apenas refletem a sede do contato da minha alma com a sua, e isso é tão livremente belo quanto uma borboleta azul a sobrevoar um jardim de camélias vermelhas, ou quanto nós dois, num abraço urgente, apertado, a nos amarmos a cada batida acelerada de nossos corações, unidos, colados, sem barreira nenhuma entre eles. Você então me segura forte e me rodopia pelo ar. Meus cabelos acompanham o ritmo do vento, e você me olha de baixo, sorrindo, com um brilho no olhar que me desperta toda a alegria pela sensação agora já de familiaridade com o presente, mas um presente que faz jus ao nome que tem. Um presente que vivo de modo surreal ao seu lado, e prezo, convicta, que perdure por toda a eternidade dos nossos dias. 

E é só desfazermos o nosso longo abraço que a saudade já vem fugaz na primeira batida que o meu coração dá longe do seu. Estou certa de que, na vida, não há sensação que se iguale a essa. Sou incapaz de nomeá-la, explicá-la ou entendê-la. A única coisa que sei sobre ela é que ela é azul. 
Azul como o céu. Azul como o mar. Azul como a liberdade. Azul como você.

É grandioso perceber os rodeios que o amor é capaz de dar somente para escancarar a nossa frente todos os seus intentos; e nós talvez devêssemos ver nisso tudo um grande sinal de como ele deve ser.
Gosto muito e até acho um tanto curioso quando me vejo reproduzindo atitudes suas com a maior das naturalidades, como se esse ou aquele gesto, seus, fossem próprios de mim.
O maior dos sorrisos que minha boca é capaz de desenhar, circundando a lua e transpassando livre por cada um dos sinais de fulgor desse grande céu, é teu. 
Sempre é.

Tão correto, e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos...


Ao longo deste ano, três espelhos escorregaram e caíram de minhas mãos – mas nenhum deles sequer rachou.
Essa imagem talvez bem represente o que foi 2014.

Hoje é dia 31 de dezembro, e tudo o que sei é que não há nem ao menos resquícios de dúvidas de que 2014 impressionou, e muito, nos mais diversos temas que se fizeram presentes. Este foi um ano de grandes aprendizados, mas daqueles que ferem, cortam, machucam, atiram e cutucam fortes a ferida antes de qualquer sinal de ensinamento.
Sorriu e viveu-se muito para, repentinamente, serem escritas cartas de adeus e serem derrubadas lágrimas capazes de escorrer pelo rosto velozes e aterrizarem no peito como grandes cometas chegam ao planeta. 
Tudo isso seguido de novos sorrisos, e de sorrisos que surgiam infinitamente mais fortes do que antes, como que prontos para rasgarem as bochechas e expandirem-se dando voltas a abraçarem todo o mundo.
A noite caía e o sol nascia sem sinal de explicação.
Mas se há algo que potencialmente me afetou, me fez aprender: e foi aí que passei a olhar, de fato, de olhos não tão abertos para o meu próprio interior. O alívio crescente da aceitação e dos não tão presentes questionamentos das tantas inconstâncias da minha órbita me fez crescer. 
Nunca fui tão grata aos meus próprios erros  talvez eu já até mesmo pudesse prever o crescimento que eles mais tarde me proporcionariam pelos reflexos nos espelhos inteiros sobre o chão terem se mantido e sobrevivido sem o trauma da queda.
E que alívio isso traz...

Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual.

A dor da tua lembrança me vem feito a de uma doença crônica, como as que, por mais que se busque de modo incessante a cura através de diversos medicamentos, consultas médicas e tratamentos alternativos... persistem.
É uma dor que não cabe no peito e, tampouco, no bolso, fazendo surgir fugaz a ideia de esforço por me confortar com a ideia de ter de dividi-la por entre todos as lacunas e entranhas do meu corpo, já não bastando carregá-la por sobre a cabeça como um pesado balde cheio d'água, ou pendurada sobre os ombros na forma de uma mochila de tricô cheia de pedregulhos pontiagudos a pinicarem e arranharem a pele das costas.
Observo as flores secas no jardim, regadas no dia anterior, e as carnes dos seios que sangram através de profundas fissuras. O travesseiro sobre a cama atijola-se e dá chance aos vultos a impedirem a breve morte. 
Já não há paz.
E o amor, talvez tenha se afixado nas entranhas pedregulhais a penetrarem às costas.
Somente nas maiores pequenices dos detalhes é que temos provas da intensidade de um amor.
O sorriso ao acordar. O sol que atravessa difuso as cortinas do quarto. O calor da xícara de chá pela manhã. Aqueles três chaveiros pendurados à chave de casa. A foto na carteira. As flores no vaso sobre o criado-mudo. Os livros com dedicatórias na estante. Os brincos nas orelhas. As trufas prediletas do outro sempre no armário da cozinha (mesmo que se odeie maracujá); sabe-se lá quando ele pode surgir. A antologia do poeta preferido sobre a escrivaninha, com grifos nessa e naquela página: os trechos preferidos, aqueles que fazem com que se lembre do outro. Aquela camisa dele no guarda-roupa, envolto por todos os seus vestidos. Os discos do Chico emparelhados na prateleira, valiosos. A aliança no anelar. A chuva que toca suave a pele macia. Os arranhões nas costas. Os ingressos de filmes chatos que fizeram bocejar (mas que o outro adora). A ligação inesperada no meio do dia. Os escritos no caderno; o próprio caderno só de escritos. As cessões. O casaco emprestado. A música que começa a tocar no rádio no mesmo instante em que se sorri. As boas lembranças. A mão que percorre o corpo. O corpo que percorre o outro.  O deitar sobre a grama lado a lado. O sentar à mesa para criar sempre novas figuras sobre o mesmo brilho dos mesmos olhos em cada novo escrito. O céu. A lágrima do medo da perda. A suavidade do travesseiro ao descanso ao fim do dia. O sorriso ao dormir. O sorriso ao acordar. O sol que atravessa difuso as cortinas do quarto. O calor da xícara de chá pela manhã.


Como um funâmbulo a se desequilibrar em queda-livre no picadeiro após décadas de treino, sabe-se de certos fulgores que se substituem por outros.
Há certas feridas que, de tão profundas, reviram o estômago e trazem consigo um enjoo como nunca antes experimentado, de vômito cinza e estrelas pontiagudas perfeitamente cortantes.
Sabe-se hoje das desilusões tão grandes, que nos empurram do mais alto dos precipícios do que antes, imaginava-se, era só prelúdio: e a dor da recém-descoberta catarse surge com maior impacto durante a queda do que no próprio despencar no abismo – e o deslocado sangra, mas sangra aqui, do lado de dentro da alma.

Olhos fechados:
fugaz, todo o universo assume tons de vermelho gritante:
ou tudo, ou nada.

Sem que se desse conta, concluía-se todo o processo de sua metamorfose no mais perfeito dos equilíbrios.


O toca-discos soa no canto do quarto:
... com um balão só já dá pra voar...

Leva menos do que uma fração de segundo: de olhos fechados, sinto dissipar o teto sobre a minha cabeça, pouco a pouco. O vento é fugaz em desordenar os fios do meu cabelo, e, enquanto isso, nada mais que inspiro. Cruzo as pernas. Aguardo.
Eu estou aqui, encolhida sobre essa cama insólita de espirais, aguardando o cair da chuva.
Aqui, não há barreira alguma entre o céu e eu – e o meu pulso bate acelerado pela adrenalina que se prepara para o maior dos dilúvios. Vigio.
Com o pensamento já apregoado na mescla de chuva e lágrimas, espero. 
Na súbita escuridão escarlate das nuvens negras sobre aquelas cinco paredes, a luz dos relâmpagos. O som dos trovões.
Dos relâmpagos, a luz. Dos trovões, o som. E eu, na espreita.

Em um segundo de duração menor do que um suspirar profundo, porém suficiente para interrompê-lo, o telefone toca.
– Oi!

O teto sobre mim, recomposto. A forma assumida, a de um céu azul mais estrelado de que se tem história.
E, no fim do teu arco-riso, um pote bem cheio de moedas de chocolate.

: você carrega no olhar uma argumentação lírica capaz de amolecer a mais firme das pedras, do mais elevado dos cumes, da mais fria e distante das montanhas, e cada célula dessa verdidão infinda dos teus olhos, ao me refletirem, dão-me a mais privilegiada das visões do universo do interior da tua alma infinita.
Em um céu de dimensões estupendamente inefáveis, é feito um piscar de olhos que a bondade que me é transpassada ultrapassa todas as margens do inimaginável ao acariciar e amansar todas as dores que encizam essa atrofiada alma minha, que tanto tem a aprender com a tua.

Faz dessa alma tua o meu lar, e vê nesta coloração efêmera do coração meu o maior dos exercícios da paciência do saber-viver. Assim: 

semprejuntos.

É você que tem
Nas tuas mãos
Meu choro de mulher 
Tem meu ver 
O meu sonhar, o que quiser 

É você que é 
O homem meu 
Meu grande amor da minha vida 
É tão teu 
O gosto da minha mordida 

É você que tem 
O colo que eu 
Deito e descanso 
É tão teu 
Meu coração aflito e manso 

É você que tem 
Na pele a luz 
Cor da coisa mais segura 
Que eu já vi 
Formar na mácula escura 

É você que tem 
Nas tuas mãos 
Meu choro de mulher 
Tem meu ver 
O meu sonhar, o que quiser 

É você que tem 
Na pele a luz 
Cor da coisa mais segura 
Que eu já vi 
Formar na mácula escura 

É você que tem 
O colo que eu 
Deito e descanso 
É tão teu 
Meu coração aflito e manso
[Mallu Magalhães]




Amar dói e faz chorar profundamente na calada da noite. 
Uma lágrima pela palavra não-dita, outra pela dita. Duas pela distância, três por cada ponteiro do relógio de mil toneladas afixado ao peito, quatro pela falta, pelo tempo. Cinco pela excessiva afinidade, que gera a saudade a colorir de cinza da sexta à centésima lágrima.
Sete por cada demonstração de apoio à distância, na impossibilidade de um abraço do tipo que prensa dois corações. Oito pelos nós na garganta e nos dedos, acorrentados e aflitos a fazerem as malas e partirem sem volta na direção das tuas pegadas. Nove por cada dor identificada no outro, enganadora ao gerar o breve torpor da reciprocidade.
Amar dói e faz chorar tão profundamente na calada da noite que, ao quase ultrapassar a exaustão, chega ao ponto do, enfim, dez-canso.

Eu me sinto tão confortável ao seu lado, que, quando você me abraça, é como se me recostasse sobre a nuvem mais macia desse céu mais que azul a pairar sobre nós dois – esse mesmo que surge sempre refletido nesses teus olhos engolidores de céu.
É engraçado, não acha? Como tudo parece ensaiado. Sempre rimado. Numa sintonia que é como se fosse adestrada. Me surpreendo sempre com a grandeza do que temos; não é algo com o qual me acostumo por um segundo sequer desde que aqui te reencontrei, depois de enfrentarmos com tanta dificuldade uma distância que já ultrapassava a catraca dos milênios. Hoje vejo a necessidade de toda aquela tempestade que mais parecia ter durado três mil anos: nunca antes o céu, esse mesmo refletido dia após dia em seu olhar, me pareceu tão maravilhosamente reluzente.
Vejo em mim uma capacidade a cada manhã maior de te admirar por absolutamente tudo o que você é, tudo o que você faz, quer, pensa e verbeia. Eu te amo por todas as suas ações e até mesmo pelas suas não-ações, também. Porque eu te amo completo – e que grande eufemismo é esse, que me norteia do momento em que eu acordo, até o instante em que me deito para dormir.
...
Você me pergunta sobre a razão de te amar tanto assim, e toda a voz que de minha garganta pode ser emanada surge da porção mais infinita do meu peito: de boca fechada, armazeno letra por letra, sílaba por sílaba, e deposito-as inteiras num único gesto. Smack!

Vontade de eternizar cada momento com você, para depois de cem anos me lembrar com precisão dos momentos mais felizes da minha vida. Vontade de ver em seu rosto todos os sorrisos escancarados de uma vida inteira, em uma só tarde. Vontade de te amar sem limites entre o meu e o seu corpo, unidos, colados, desenvoltos. Desejados, envoltos somente por quereres sem porquês. Vontade de nunca mais sair desse mundo sem órbita, de nunca atravessar essa porta florida e sem fechadura – apenas se for para voltar. 
Vontade de não dimensionar essa atemporalidade dos relógios a nossa volta, e de ter cada novo dia como uma nova chance de te amar, sempre nova. Vontade de poder olhar para os três tempos verbais e conjugá-los sempre entre tudo o que já vivemos e o que temos ainda por viver. Vontade dos "lembras" e dos "imaginas". Das exclamações e reticências. Dos suspiros, interjeições. Dos eufemismos, declarações.
Demonstrações diretas do querer.

[ 31/10/13 - ∞ ]

Eu te amo tanto que, de um modo esquisito e engraçado, me dá uma vontade inexplicável de chorar, e de chorar rindo – assim, ao mesmo tempo. Essa é daquelas vontades incontroláveis, que logo te fazem dar um risinho e me pedir para parar de chorar aqui do outro lado da linha. 

Mas me diz se tem como não se apaixonar diante de toda a doçura do mundo. Nem o doce mais doce do mundo pode ser tão doce quanto você, que carrega no peito todo o carinho de mil vidas inteiras, e deposita-o em mim sempre que me abraça e me tira de todas as amarras desse mundo.

Sempre que percebo teus olhos em mim, encaro-os e vejo neles duas estrelas do mar que se confundiram e se perderam.

Seus olhos são como estrelas do mar perdidas a vagar pelo céu da minha alma.