Parte II - Jesus of Suburbia

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Eram oito horas quando o despertador tocou. Tudo o que eu fiz foi tacá-lo em direção à janela, e o maior problema é que eu estava bêbado demais para saber se fui bem-sucedido ou não. Fazia pouco mais de uma hora desde que havia chegado em casa. Aquela era claramente uma tentativa de minha mãe de me tornar alguém responsável, ou algo do tipo – embora eu a todo tempo insista no argumento de que os meus atos são meros reflexos dos dela. Como ela poderia esperar um ato responsável de minha parte quando ela havia virado a noite jogando?
Droga.
Ia pegar o maço de cigarros que imaginei ter deixado sobre o criado-mudo quando percebi que ele não estava lá. Levantei e fui em direção à cozinha, quando me deparei com a minha mãe, dormindo sobre seu braço direito, e a caixa logo ao lado do isqueiro, vazio.
... droga.
Saí de casa chutando a cadeira da cozinha e mentalmente, também, os palavrões que passavam pela minha cabeça. Sei que meu pai não gostaria de me ver assim, esteja ele onde estiver. Mas não que sumir e jogar alguns trocados na conta bancária da minha mãe todo o mês o faça ter algum tipo de direito de opinar sobre a minha vida.
Vou em direção ao Square. Por lá nunca vemos as mesmas caras: todos os dias chegam novos jovens em busca de liberdade e algum tipo de esperança – nem que seja a de conseguir bebidas sem que os pais desconfiem. O lugar é repleto de pichações e rabiscos por toda a parte. Reflexos do rancor atuante em nossos passos. Avisto lá longe Bill sentado junto a Karolyn e uma porção de outras gatas. Sally também estava lá. Ela tinha seus olhos pintados de preto, e seu cabelo cor de fogo passava por toda sua coluna, até atingir a sua cintura, que agora agradava os meus olhos movimentando-se ritmadamente ao som da guitarra nas mãos de Bill. O vermelho de seus cabelos parecia gelo perto do calor que percorria o meu corpo, de cima a baixo. Com essa cena resolvo fingir que não os vi. Karolyn não faz ideia dos caminhos por que andei antes de nos aproximarmos. Sally não parecia ser do tipo de garota que sairia contando para todos que vê pela frente as loucuras de uma única noite com um cara que mal conhece. E eu espero, desde então, que tudo prossiga como agora está: em segredo.
Eu realmente espero...
– Mas que indecisão entre qual bebida escolher! Estou segurando essas garrafas aqui há meia hora, parado em sua frente... – reclama Earl após chutar a minha perna, sentando ao meu lado – Em que tanto pensa, Joel?
– Opa... Foi mal aí, Earl. Na verdade não quero nada agora. Estava só aqui, parado, pensando no nada. Acho que o que me falta mesmo são sonhos. Não tenho nenhuma meta nessa porcaria de vida! Droga.
– Ih, cara! Isso aí é ressaca de ontem ou o quê? Vou é me mandar daqui... Fiquei de me encontrar com a Sally na escadaria em alguns minutos. Manja, não manja? – O sorriso estampado em seu rosto transmitia tanta malícia que até mesmo superava toda a que havia naquela situação. – Pelo menos eu e você teremos um papo mais empolgante se nos vermos amanhã. Você anda muito pra baixo ultimamente. Ninguém merece!
– Cala a bo...
– EARL!
Desconfio que qualquer morador do outro lado do mundo tenha sido capaz de ouvir o grito de Sally – e ele, claro, naquele momento possuía a melhor das audições quando saiu correndo atrás daquelas pernas longas, aveludadas e encobertas até o joelho pelo seu All Star vermelho.
Os dois somem de vista, e então percebo que Earl deixou ao meu lado as garrafas, alguns cigarros e um jornal. Earl devia estar certo. Há mesmo algo muito errado comigo. Não me recordo de nunca antes em vida ter deixado as garrafas intactas e ter aberto um jornal.
Mas aquele, definitivamente, não era um jornal qualquer.
Eu mal poderia prever os efeitos daquelas folhas cinzentas sobre a minha aura, que não demoraria a tomar formas e cores nitidamente luminosas.
E eu mal poderia esperar por isso.

(...) CONTINUA (...)